O legado e os aprendizados dos 40 anos do IPv4 dão lugar ao IPv6

30/09/2021

O protocolo IP que popularizou a rede (IPv4) e transformou a Internet em uma rede global, completa 40 anos. Embora os especialistas valorizem as contribuições e os aprendizados muito valiosos das quatro décadas do IPv4, concordam que chegou a hora da implementação massiva do IPv6, a fim de dar um passo para o futuro.

Carlos Martínez, CTO do LACNIC, referente da comunidade técnica mundial em temas da Internet, reviveu a história do IPv4, contou alguns pormenores da sua criação e defendeu um futuro com IPv6.

Como surgiu o protocolo IPv4? Que avaliação o senhor poderia fazer sobre a criação do IPv4 há 40 anos, bem como das quatro décadas de funcionamento desse protocolo?

O protocolo IPv4 nasce, por sua vez, como a evolução do protocolo de rede anterior, que não se chamava IPv3. O protocolo anterior se chamava NCP (Network Control Program) e possuía em apenas um protocolo as funções que hoje conhecemos de IP e de TCP. Uma das lições mais importantes nesta etapa foi perceber que isso não era uma boa ideia, e então surgiu IP e TCP como dois protocolos separados.

Hoje apreciamos o valor desta lição, ao ver que, quando um ISP habilita IPv6 para seus clientes, esta mudança é praticamente transparente para estes usuários. Se não tivéssemos aprendidos esta lição, hoje teríamos que estar pensando em mudar TCP ou a função equivalente, e todo o processo da transição a IPv6 teria sido ainda muito mais complexo. 

O IPv4 foi capaz de escalar uma rede global; dando-nos a possibilidade de possuirmos a Internet que temos atualmente. É um protocolo estável e suficientemente bom para que hoje possamos ver filmes e fazer vídeochamadas sem termos de pensar no que há na rede. O IPv4 começou a funcionar quando as velocidades típicas na Internet eram medidas em centenas de bits por segundo e continua nos servindo ainda hoje quando as velocidades típicas são medidas em centenas de milhões de bits por segundo.

O IPv4 encerra uma série de lições muito valiosas na hora de desenhar protocolos. Um dos pontos chaves foi o que eu disse anteriormente, a separação clara de responsabilidades. Uma oportunidade de melhoria, na realidade, é pensar como um protocolo pode se estender sem precisar mudar tudo. Esta última lição foi bem interiorizada e depois implementada em outros protocolos como DNS e HTTP, que podem estender-se facilmente.

É evidente que o IPv4 permitiu o crescimento da Internet atual.  Mas o fato da sua finitude não faz com que o considere “obsoleto” na atualidade, diante do IPv6? 

Não gosto do termo obsoleto para algo que ainda continua funcionando. Acho que o termo “legacy” ou legado fica melhor. Se a sociedade não tivesse incorporado o uso da Internet como uma parte chave no seu dia a dia, se a Internet continuasse sendo um serviço de nicho para acadêmicos e governos, então o IPv4 seguiria sendo suficientemente bom.

O IPv6 é o elemento que precisamos para dar um passo para o futuro, para que a Internet que conhecemos hoje continue funcionando do mesmo jeito.

Pode ser que a demora na implementação dos endereços IPv6 esteja disparando o interesse nos “poucos” IPv4 disponíveis no mundo, assim como a expansão dos mecanismos de transição?

Há uma certa pressão nas operadoras em razão da demora na implementação de mais conteúdo em IPv6, há também certa inércia e costume de usar o protocolo anterior, bem como, em alguns casos, há a necessidade real de ter que adaptar sistemas de gestão e equipamento. Tudo isso faz com que aumente o interesse pelos pouquíssimos endereços IPv4 que ainda restam.

Nada disso é exclusivo do IPv4 ou da Internet. Há múltiplos exemplos semelhantes em diferentes tecnologias e indústrias. Há um ponto de cruzamento no qual o custo de continuar operando com o legado, ultrapassa o custo de incorporar o novo, e isso faz com que aos poucos cada vez mais operadoras e provedores de conteúdo implementem o IPv6.

O senhor acredita que as pequenas empresas possuem os recursos necessários para impulsionar o IPv6 e que as grandes empresas possuem incentivos suficientes para fazer esta transição?

Acho que não há uma resposta universal. Na realidade há outros múltiplos ângulos que são relevantes, como por exemplo o grau atual da penetração de Internet em cada país, a situação econômica e a capacidade de investir.

As operadoras pequenas possuem algumas vantagens importantes (possuem menos equipamentos para converter, seus processos são mais simples, podem utilizar muitas soluções de routing de código aberto), mas também algumas desvantagens (menos pessoal, menos capital). Possuem um incentivo importante para contar com recursos de numeração próprios, como políticas de roteamento próprias para acessar a IXPs e a CDNs. Quem não tiver IPv4 hoje deve necessariamente pensar em fazer isso com o IPv6.

As grandes operadoras possuem outros incentivos, contudo os casos podem ser bem diferentes.  É notável o caso das operadoras do Brasil e do México referente à rapidez com a qual conseguiram implementar um grande número de IPv6.

Respeito à pergunta anterior, o LACNIC realizou um estudo este ano. Quais as principais conclusões em relação há cinco anos?

Os obstáculos para a implementação do IPv6 mudaram. Em 2016 a primeira causa era a falta de suporte do IPv6 nos CPEs (os equipamentos que as operadoras instalavam nas casas de seus clientes, os “modems” ou “routers” conhecidos pelos usuários). Em 2021 este item aparece, mas não em primeiro lugar nem como algo urgente.

Em 2021 mencionamos como primeira causa a necessidade de adaptar os OSS e BSS (sistemas de suporte operativo e sistemas de suporte de negócio), peças de software que são chaves para a operação da Internet, tanto na habilitação de novos serviços quanto na faturação.

Como se encontra a região da Latam em relação ao resto do mundo quanto à implementação e penetração do IPv6? Como o senhor vislumbra a evolução para os próximos anos?

A Latam está na média mundial em adoção do IPv6, em torno de 30%, um de cada três usuários pode acessar conteúdo com o IPv6. Entretanto, persistem assimetrias muito importantes em cada país dentro da mesma região.